27 October 2011

A NOSSA MÃO

A cada passo dado, novos desafios surgem. A cada resposta conquistada, novas inquietações. Para quê? Porquê? Que espírito faminto é este que tanto de nós consome, que nem nos deixa viver em paz? Porque não podemos nós estar sentados numa pedra a contemplar inocentemente o mundo, sem que isso nos afecte de uma forma tão arrebatadora e doentia? Não seria tudo tão mais fácil se fossemos formatados para não amar, não sofrer, não questionar? Mais fácil sim, certamente. Mas seria melhor? Ou pior? Ou igual?

Depois de tantos degraus, sinto-me cansado. Apetece-me descansar. Estou exausto.

O que vejo existe? Como distingo o real do imaginário, o bom do mau, o certo do errado? Como sei que não sou um sonho, ou um sonho dentro dum sonho, ou o sonho de alguém? Serei eu o teu sonho ou tu o meu sonho? Ou será que somos sequer? Eu existo? E se existo, onde existo? E como existo? Estou tão cansado que nem me atrevo a perguntar agora o “porque existo?”... Mas, seremos tudo isto que pensamos que somos? Ou seremos apenas um resíduo de tudo o resto? Será o nosso universo (caso exista e não seja produto do meu sonho), apenas a parte de dentro da mais ínfima partícula, e fora dela tantas outras partículas como universos? E realidades? Serei eu sempre? Serei só um? Sempre? Durante quanto tempo? Num ciclo infinito, ou numa linha perpétua? Ou, simplesmente, um ser que nasce, vive e morre num planeta previsível que não se regenera e numa realidade que não se perpetua?

Vamos descansar, talvez fazer um ponto de situação.

Admitamos a doutrina do devir e gnosis dentro de nós – ainda que não o possamos comprovar pela experiência mas sim por um conjunto estruturado de premissas, existimos de facto dentro dum universo que também existe, e evoluímos enquanto criaturas reais num planeta habitável, tendo sido dotados pelas evoluções genéticas de um cérebro capaz de racionalizar e tornar-se consciente do ego, circum ego e status quo. Para além dessa evolução natural enquanto espécie, e decorrente da supra-consciencialização, surge um entendimento alargado da própria existência como um todo, percebendo aos poucos que fazemos parte de um conjunto simbiótico de elementos que também nascem, vivem e morrem, e que ao morrer dão lugar a outros que por sua vez nascem e vivem e morrem. Estas criaturas reais, nós, sabemos que estamos em constante mutação e transformação, muito para além da Evolução, e que somos feitos da mesma massa que tudo o que nos rodeia e que este actual estado é apenas mais um, cabendo a nós dar-lhe a importância e uso que bem entendermos. Em resumo, somos seres luminosos e espirituais capazes de (e construídos para) compreender. Somos máquinas desenhadas para devorar conhecimento, e evoluir com ele, mas sem que haja necessariamente um propósito.

A nossa consciência foi evoluindo, mas o espírito não – ele sempre esteve cá, simplesmente não sabíamos. Ele não é imutável, como nada é, mas a matéria-prima é a mesma.

Evoluindo, a consciência humana deixou de ser aos poucos uma amálgama imatura de regras e foi sendo compreendida e moldada, primeiro pela necessidade e depois pela convivência, crescendo exponencialmente e alicerçando-se sobre si própria, ameaçando (es)tender para o infinito. O Holismo, a Imersão, o Amor e a Verdade, são a sabedoria absoluta, o culminar da caminhada – infinitos mas impossíveis de tentar deixar de alcançar. Aceitar isto e ainda assim prosseguir é a maior das virtudes.

O que com o nosso Olho conseguíamos enxergar, agora podemos tocar. Sabemos o que está ao alcance da nossa Mão, basta estender o braço. Tomando como certo o caminho percorrido, porque não faria sentido de outra forma, é tempo não só de ver o mundo de outra forma (e nós inclusive), mas de moldá-lo também (e a nós próprios, claro).

Olhando e aceitando, moldando e focando e compreendendo, evoluindo e olhando e aceitando outra vez, o que estamos nós a fazer? A moldar a nossa realidade? Mas isso não fará com que ela deixe de ser a “realidade de todos” e passe a ser a minha? Não estaremos a caminhar para a clausura espiritual, para a esquizofrenia, para a demência? Como sei que não estou a construir sobre premissas erradas? Qual é o meu referencial, o meu mapa?

Para isto a resposta é demasiado simples – aceitar o devir e gnosis não é aceitar um conceito oco. Trata-se de compreender que vamos evoluindo espiritualmente enquanto seres conscientes, pela via do Conhecimento e da absoluta Compreensão de tudo o que queremos assimilar e vamos deixando para trás como adquirido. É como se para construir o segundo piso de um edifício, o primeiro tenha de estar completamente cimentado.

Quanto ao foco, ele tem obrigatoriamente de estar orientado para o devir e gnosis, pois é esta doutrina que determina o Caminho. O foco determina invariavelmente a realidade, então se focarmos em bananas, a realidade é bananas. Focando uma realidade, seja devir e gnosis ou simplesmente bananas, está gerado automaticamente um significado e, consequentemente, somos conduzidos nesse caminho. Eventualmente, talvez mesmo naturalmente, acabaremos por moldar a banana, a casca da banana e a bananeira, ou dito de outra forma, o ego, o circum ego e o status quo. Não é esse o objectivo, mas acontecerá. Ainda bem, talvez.

E se, algo houver de errado nesta equação? E se vier a vertigem? A paranóia? Aceitaremos humildemente a derrota? Ou lutaremos até ao fim enquanto vemos a torre tombar debaixo dos nossos pés?

Vamos descansar, respirar fundo e gozar o momento.


“Não tenhas medo da perfeição – jamais a alcançarás.” Salvador Dali.

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