09 August 2011

SUBLIMAÇÃO

Por fim, a Sublimação.

Até aqui falámos dos doze patamares da consciência humana mais fáceis de compreender, e assim o são porque duma maneira ou doutra já os conseguimos experimentar a espaços, não duma forma transversal a toda a espécie por motivos socio-culturais, mas por causa do nosso estágio avançado de evolução.

Mas faltam os últimos quatro, aqueles a que a mente humana aspira sem nós sabermos.

Lembram-se dos primeiros degraus que subiram? Lá atrás na infância? E aqui, nesta nossa viagem? Lá, como cá, falávamos do nosso desejo asfixiado de compreender, de ver para lá do que os olhos podem ver, do que apenas podemos sentir mas não explicar.

Recordam o aperto no peito, já sentiram o abraço do nada? Já sorriram a chorar? Porque temos sensações que não podemos explicar? Porque por mais que a nossa alma coma, há sempre lá um vazio?

É a Sublimação.

Começamos pelo degrau mais alto a que a nossa percepção pode atingir – o Holismo. Um dia talvez iremos compreender o que somos, onde estamos e porque estamos. Um dia, quem sabe, iremos compreender que somos um grão de areia, somos parte do todo. A nossa percepção do que nos rodeia irá conseguir levar-nos a ver sem extrapolar, a sentir sem intuir. Iremos conseguir sair do nosso corpo e ver o quadro completo. Sem metáforas. Somos uma peça do sistema, mas agora ainda só o conseguimos pressentir. O Holismo é o patamar onde não conseguimos explicar a biologia da planta, sem explicar a do solo e do ar e da água e do sol, nada poderemos explicar a não ser pela soma dos componentes, pois ao serem independentes nada significam. O humano Holista consegue compreender a própria existência, pois sabe que não somos dissociáveis uns dos outros, pois sabe que as causas de uma determinada matéria não são explicáveis por um conjunto circunscrito de factores óbvios, pois tudo faz parte dum sistema que se influencia a si próprio.

Depois disto, surge a nossa relação para esta percepção máxima das coisas. Se somos mestres a dominar a arte da percepção, de que forma nos iremos relacionar? Pela aspiração máxima da relação entre dois seres – a Imersão. A Simbiose torna-nos uns colaboradores natos, pois não só nos unimos para cooperar, como tornamo-nos interdependentes. Pois, a Imersão leva o conceito ao limite, pois admite o conceito de fusão. Na Imersão, a capacidade de comunicação e interacção é tão forte que a troca de informação dá-se a nível sensorial, ou mesmo fisiológico. A comunicação verbal ou escrita há muito que se foi, e como o Holismo permite-nos compreender a realidade fora do ego, a Imersão permite-nos fundir esforços para atingir um objectivo comum, ou simplesmente partilhar uma experiência.

E qual a nossa atitude perante tal relação? Como lidar emocionalmente com essa invasão? Como definir tal aproximação e tal ligação? Bom... alguém a dada altura já se terá sentido apaixonado, por um marido ou mulher, amante, filho, pai, irmão, amigo, divindade, animal de estimação... então pergunto-vos: o que é para vocês o Amor? O que é amar? O que é sentir o Amor dentro de vocês? Pode o Amor ser explicado? Pergunto-vos então, não vos querendo ferir: existe algum tipo de amor que actualmente não possa ser explicado pela Ciência? Ou, dizendo de outra forma, alguém duvida que o Amor como o conhecemos é o resultado químico de uma forte empatia que deriva de uma reacção do Instinto? Ou menos cruelmente, já pensaram porque no amor conjugal não o conseguimos dissociar do sexo? Não me interpretem mal, o Amor como o conhecemos hoje é um sentimento nobre e forte, que é mais do que apenas química e instinto. Mas não é o Amor absoluto e incondicional. O conceito cristão de “amar o próximo” jamais foi ou será levado à letra, até que a evolução da consciência humana atinja o nível do Amor. Então, que Amor Máximo é este? Não sei explicá-lo, claro, mas... imaginem-se a amar tudo o que os rodeia: o cão, o vizinho, as rosas do quintal, as nuvens ou a chuva. Certamente o nosso coração iria explodir se isso nos caísse hoje no colo, mas quiçá no futuro os humanos consigam-se amar sem contemplações, partilhando tudo para o bem comum, pensando no bem comum, interagindo e sentindo em conjunto, em harmonia com tudo o que os rodeia.

Mas, o que é que “os rodeia”? Já conseguimos compreender isso neste nível? Já chegámos à Verdade absoluta? Pois, o último nível da escala da compreensão humana, o zénite da nossa consciência enquanto espécie, será atingido quando todas as barreiras caírem e conseguirmos ver a Verdade. A Verdade é a última realização em relação à atitude. Morreriam de espanto se chegassem lá e vissem que nada disto existe? Que é tudo um sonho sem sentido e sem propósito? Um jogo sem fim? Nem poderei conjecturar de forma séria a Verdade no meu estado actual de consciência, infelizmente, pois tenho mil e uma teorias a correr nas veias. Mas será esta Verdade a resposta final e disso não tenho dúvidas.

Não chegaremos lá de forma consolidada, é uma questão de evolução natural. Levará talvez Eras, portanto conformem-se.

A Sublimação é o suplantar das nossas actuais barreiras. Ver para lá deste muro agora seria como um homem do Paleolítico ver um programa televisivo – existem tantas premissas por descobrir e consolidar que parecer-nos-ia um sonho horrível demais para assimilar, não o poderíamos abarcar e certamente iríamos colapsar sobre nós próprios, admirados e chocados, felizes e tristes, uma mente confusa e perdida no tempo, que desfruta uma viagem de mil anos em breves segundos e quando regressa não sabe explicar o que viu.

Podemos, claro, pelo esforço ou pela batota, tentar espreitar o muro,... fará mais bem do que mal, certamente. Irá apressar o destruir destas barreiras? Conseguirá precipitar esta evolução? E será que queremos mesmo apressar a evolução? Será benéfico? Pois, não sei... mas é a curiosidade e o ímpeto que nos move. E mais, não vejo como a evolução nos pode fazer mal, não é ela que tem a capacidade de nos magoar, nós próprios é que vulgarmente o fazemos.

“Se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria ao homem tal como é, infinito. Pois o homem fechou-se a si próprio, e agora vê tudo através de estreias fendas na sua caverna.” Aldous Huxley.

No comments:

Post a Comment