02 May 2011

ESCLARECIMENTO

Após termos avançado na descrição da escala da evolução da consciência, chegámos enfim ao culminar de todos os ensinamentos. Este é o ponto em que aceitamos o que somos e compreendemos o que nos rodeia. Dar-me-ia por feliz se a Humanidade atingisse este patamar evolutivo até ao fim desta Era.

Este terceiro nível (sendo o primeiro a Imaturidade e o segundo a Sensibilização), também pode ser definido como a Iluminação, embora prefira fugir a esse perigoso rótulo. Não se trata de um nível onde se adquire qualquer estado de graça ou bênção, quanto muito uma bênção cósmica que nos acalma e dá serenidade para perceber um pouco do nosso papel. Mais importante do que atingir um estado de consciência maduro, o Esclarecimento deve trazer a calma para perceber o Mundo e o Eu.

Em termos de percepção, é aqui que cimentamos a Compreensão – tal não significa que compreendamos tudo ou isto ou aquilo, mas é onde o indivíduo compreende se compreende, ou se pelo menos tem a humildade de continuar a tentar compreender. Já estamos muito longe da simples Percepção, mas é certo que partilham a mesma raiz – o Instinto.

Na relação para com a percepção, evoluímos da Colaboração para um nível em que não apenas interagimos com o grupo para proveito do todo, mas sobretudo tornou-se uma necessidade intrínseca. Este nível é a Simbiose. Aqui não procuramos o grupo para resolver um problema, aqui somos sempre o grupo, indivisível. Somos irmãos. Pergunto-vos: se estivéssemos a enfrentar uma grande calamidade, quem tentaríamos salvar primeiro? Quase todos elegem a família como grupo a resguardar numa situação de risco. Numa sociedade simbiótica perde-se o conceito de família, necessariamente. Somos produto do grupo, é com ele que nascemos e crescemos e aprendemos. Eventualmente, os códigos tenderão a evoluir e a simplificar a comunicação, já estaremos muito longe de quaisquer diferenças mesquinhas como a cor ou o credo. Diferentes, obrigatoriamente, mas complementares.

Na atitude para com a relação, este nível traz-nos a Ligação. A Empatia evolui para um ponto em que se torna difícil perceber o que é o interesse individual. Aqui, as relações químicas que hoje nos aproximam ou repulsam, irão ser severamente moldadas pelo sentimento de Ligação. Uma consciência evoluída irá tentar compreender as diferenças e faz uma gestão inteligente da relação entre indivíduos do mesmo grupo – ao contrário dos dias de hoje, em que a falta de compreensão que gera à quebra da empatia dá origem a sentimentos primários e adversos, como a agressividade hostil ou mesmo o ódio.

Finalmente, na realização em relação à atitude, este nível permite-nos finalmente reconhecer aquilo que tem sido a nossa busca – a Felicidade.
Então, se atingirmos a Iluminação, seremos finalmente felizes?

Não. Não procurem a Iluminação em busca da felicidade. Os seres humanos nunca serão felizes e nunca estarão satisfeitos. O Esclarecimento permite-nos apenas reconhecer que, calma e ponderadamente, podemos sentir felicidade em relação à forma como a nossa atitude nos leva a atingir metas. A Felicidade é uma paz de espírito superior, enraizada no Prazer e da qual o sentimento de Realização evoluiu.

Olhando para estes quatro estados – Compreensão, Simbiose, Ligação e Felicidade – achamos que pelo menos o primeiro e o quarto atingimos constantemente, enquanto que o segundo e o terceiro nem temos assim tanta vontade de os atingir. Este é o estado actual da generalidade das pessoas – achamos que percebemos de muita coisa (embora tenhamos a tendência para querer admitir que não, porque socialmente é bom ser-se humilde), achamos que nos relacionamos quanto-baste com as pessoas ao nosso redor, defendemos a pátria e a família, a equipa, a igreja, a empresa... mas os que estão do lado de fora são inimigos. Ou pelo menos concorrentes, adversários. Ainda assim lutamos para a paz no mundo, desde que os concorrentes e adversários não tentem saltar o muro do nosso quintal. E quanto à Felicidade, sabemos que somos felizes ou infelizes, ou que já fomos infelizes e que queremos ser felizes. Havemos sempre de tentar ser felizes e escorregar aqui e ali, sendo infelizes, mas sabendo que lá ao fundo quando já formos velhos iremos ser muito felizes, seja lá o que isso for.

Não, não somos felizes. Não, ainda não estamos no Esclarecimento. Procurem serenamente perceber o que somos e o que realmente importa. E, acima de tudo, não deixem que vos tentem convencer daquilo que são, cada um tem que se auto-interpretar. Não sigam as regras sem as questionar, não se deixem guiar nem automatizar. Respirem fundo e perguntem-se, mudem, não tenham medo de mudar. Percebam-se e percebam o que os rodeia, sem afastar quem vos rodeia. Colaborem. O problema não está nos outros, mas em vocês. Sintam que fazem parte deste grupo que é composto por tudo o que nos rodeia, e que em cada ser humano há alguém que deve fazer o caminho de mão dada connosco (pode é não o saber) - mas não o tentem convencer nem o tentem mudar. Deixem de lado as diferenças, o rancor, o ódio. Desfrutem. Sintam-se realizados e felizes com cada passo que dão, aprendam e partilhem os vossos erros. Aí sim, estarão no caminho certo para o Esclarecimento.

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