28 December 2010

SENSIBILIZAÇÃO

Para grande parte dos ocidentais, ser sensível é ter compaixão e doar comida aos pobres, é chorar perante a dor dos outros da mesma maneira que num filme triste, é vestir roupa florida e apreciar Beethoven. Mas já Beethoven não acreditava nisto, porque vós acreditais?! Usamos chavões como “a vida é uma viagem” para consolar quem perdeu alguém, ou o vomitante “carpe diem” para justificar uma bebedeira. Porque somos sensíveis, dizem. Nós, os macacos sentados na ponta do foguetão, vamos rindo e chorando uns dos outros e pensamos que isso faz de nós... humanos.

Não, caros. Doamos comida aos pobres porque é mais fácil lavar as mãos e fingir que lhes matamos a fome para sempre – assim temos justificação moral para dizer que pelo menos fazemos algo para mudar o mundo, porque nos ensinaram a pensar que somos demasiado pequenos para fazer algo mais. Não, caros. Choramos perante a dor dos outros porque também nós não conseguimos aceitar nem compreender a morte, porque secretamente ainda acreditamos que a bisavó está a olhar ternamente cá para baixo. Não, caros. A vida é uma viagem talvez, mas nem desconfiamos que meio de transporte é este e muito menos qual o destino. Para muitos, expressões em latim são chiq.

Para mim, ser sensível significava ser mariquinhas. Agora, de certa forma, continua a ser. Que tal esta sugestão: parem de tentar ser mariquinhas por um pouco e tentem compreender o que está no fundo do lago. Spoiler alert: não é o vosso reflexo. Deus criou o Homem à Sua imagem, e logo a seguir revestiu-o com uma camada de ingenuidade e barrou-o com perguiça. E resultou, pois ainda hoje acreditamos Nele.

Sentem-se confortavelmente e respirem fundo. Recordem os degraus anteriores. Somos uma espécie adolescente que está a dar os primeiros passos em direcção à maturidade. Mas este processo de amadurecimento é lento e uma vez que a espécie está disseminada por todo o planeta e existem muitas condicionantes para uma evolução homogénea (que, curiosamente, ainda perpetuamos), temos de ter paciência para ir evoluindo e destapando o véu. Não somos burros nem teimosos, acho que estamos no sítio certo... impacientes, talvez. Disso sou culpado.

Agora, apresento-vos a próxima estação da nossa viagem na evolução da consciência – a Sensibilização. Ao contrário do que pareceu ser dito no início deste degrau, prometo que não vos tento converter ao “mariquismo”.

Antes de iniciar, percebamos que a Sensibilização é uma réplica da Imaturidade em termos de mecânica, mas completamente revolucionária em termos de compreensão (ou aproximação à compreensão). Então, da mesma forma que anteriormente, temos quatro níveis.

O primeiro de todos é a Percepção – pela primeira vez, a Humanidade começa a ter, de uma forma mais ou menos homogénea, percepção da realidade que os rodeia. Ainda não compreende e não pode ter a certeza que o que vê é real, mas pelo menos já percebe que aquilo que conhece pode ou não ser real. O Homem vê e questiona, à luz da Ciência e do seu conhecimento adquirido, e não com base em mitos e folclore. A Percepção é um entendimento subjectivo das coisas. Estudiosos, filósofos, xamãs, cientistas, muitos atingiram a Percepção. Não é uma exclusividade do nosso Século. Eles mostraram que a Percepção pode ser trabalhada, mas percebemos que talvez estivessem à frente do seu tempo. Hoje em dia, a famosa globalização trouxe alguns adventos que permitem à sociedade global comunicar-se mais ou menos livremente e explorar ideias e conceitos. Muitos (a maioria), ainda não tem acesso a estas correntes de conhecimento. Mas estão lançadas as bases para que isso seja possível em breve, espero.

O segundo é a Colaboração – é respeitante à forma como percepcionamos as coisas e a relação que temos nessa percepção. É como a Sobrevivência em termos mecânicos, mas dotada de um nível muito mais elevado de percepção do que nos rodeia. Quando um grupo de indivíduos atinge os mesmos patamares e se rege por um conjunto de valores semelhantes, tende a colaborar. É um comportamento social cooperativo, o chamado 2+2=5. Nas sociedades modernas, e um pouco por todas as sociedades antigas, há inúmeros tubos de ensaio deste tipo de relação, mas só agora parecem surgir mais frequentemente comunidades verdadeiramente altruístas que o fazem sem fins lucrativos nem por temor a nenhum deus. A Colaboração, tal como a Percepção, já é experimentada por muitos como indivíduos, mas só agora parece haver condições para se espalhar o suficiente para catalogar a espécie.

Da Colaboração poderemos afirmar que nascem as bases para a Empatia. A verdadeira Empatia, ao contrário do corriqueiro termo que nos faz parecer que somos todos amiguinhos uns dos outros, é uma atitude despojada de qualquer sentido material e sem nenhum propósito a atingir. Trata-se de uma atitude para com a relação entre membros da espécie e mesmo com outras espécies. A Empatia é um sentimento de paz que nos une, quando percebemos que ao colaborar somos todos iguais. A Empatia surge quando nos aceitamos sem reservas e não esperamos nada em troca. A Empatia é um sentimento constante e não um estado de espírito. Aqui, tal como nos outros níveis da Sensibilização, ou mais ainda, muito poucos já o atingiram e cimentaram.

E, finalmente, quando percebermos que se recolhermos os espinhos nos podemos aquecer uns aos outros, vamos sentir a Realização – uma meta relativamente à atitude ou à forma como olhamos para as coisas e para nós próprios. Só aqui vamos ser completamente Sensíveis, porque verdadeiramente sentimos o que somos e qual o nosso papel. Quase me atreveria a dizer que a Realização é, para já, o final da escala enquanto espécie, é o máximo que podemos aspirar em condições normais para os actuais patamares de evolução, e sem aditivos. Não me ocorrem muitos nomes que tenham verdadeiramente atingido este nível. Daqui para a frente vêm as planícies prometidas, a Iluminação pelo Conhecimento. Não é a iluminação dos fanáticos e grupos secretos que pintam quadros com vários significados ou desenham símbolos de soberba em notas sujas. A pureza lhes falta.

A Realização fecha o nosso ciclo até que chegue o fim da Era. Lá sentir-nos-emos... realizados.

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