Onde estás Neo?
Onde estás Jiddu?
Onde estás Lennon?
Procuro-vos com o meu Olho, mas não os encontro. Sei que estão aí, mas não os vejo. Mas sinto-os, é tudo o que sei e preciso saber. Poderei criticar aqueles que acreditam mesmo sem ver, apenas sentindo?
O meu Olho apontou demasiado tempo para fora. Como posso esperar encontrar o que procuro, sem nem dentro de mim quero procurar?
Um dia saí à rua e vi um velho no chão. Pedia uma esmola. Estava roto e com um ar triste e cansado. Na mão, tinha um copo de plástico vazio onde bebera um café que conseguiu cravar. Balbuciava uma língua estranha, mas pude perceber que tinha fome. No canto do seu olho, vi um brilho estranho e profundo que me fez viajar. Viajei. Viajei bastante até perder a noção do tempo. Viajei anos, viajei eras. Vi alegria e tristeza, vi morte e nascimento, vi rios e areia, vi pássaros a cantar e estrelas distantes. Vi a minha vida de criança quando brincava nas férias de Verão, vi a minha primeira queda de bicicleta, vi o meu primeiro beijo. Vi-me num alpendre já velhinho a contemplar feliz os meus netos a brincar, emoldurados pelo pôr-do-sol e por um velho castanheiro. Nesse dia estava cansado, tinha dormido mal. Para além disso andava aborrecido, meio adoentado. Lembro-me perfeitamente, era Janeiro - era um dia ameno no meio dum Inverno frio e seco, como um oásis no meio do deserto. Aquele brilho no olho do homem durou um segundo, mas lembro-me bem que aquele segundo durou toda uma vida. E depois bateu-me como um comboio – eu todos os dias passava ali, todos os dias eu via aquele velho. Todos os dias me pediu dinheiro para comer e nunca lhe tinha sequer olhado no olho. Nunca tinha visto aquele brilho mas tenho a certeza absoluta que sempre lá esteve. Odiei-me por isso.
Sei que não foi apenas esta a minha faísca. Já há muito que sentia o Estímulo a fermentar dentro de mim e sentia o ódio a corroer-me o corpo num doce compasso. Mas desde aquela altura da minha vida que comecei a mudar. Comecei aos poucos a perder o ódio e comecei a tolerar, comecei a escutar e a prestar atenção aos pormenores. Mudei de opinião acerca de tanta coisa, comecei a dar valor a coisas completamente diferentes. Porquê assim tão subitamente? Sinto-me tão melhor, já começo a conseguir compreender as coisas. Já alguma vez tiveram vontade de chorar de felicidade? Estou tão feliz que decidi começar a partilhar a minha experiência nestes quarenta e dois degraus – sei que eles me vão levar lá acima.
Tenho estudado mil e um assuntos, agora que sei o que procuro. Já não estou intoxicado com a sopa que me dão e já consigo opinar livremente. É tão engraçado quando percebemos que dantes pensávamos que éramos livres e felizes mas estávamos completamente fechados num casulo... agora consigo olhar para baixo e compreender que sou livre. Sou mais inteligente e perspicaz, mas não me julgo melhor. Compreendo aos poucos tudo o que me rodeia – sei agora o que Neo sentiu na sua descoberta.
O meu Olho já consegue olhar para dentro aos poucos. Consigo ver coisas brilhantes e quero partilhá-las convosco. É por isso que estou aqui. Lembram-se do que já percorreram? Consegui abrir-vos as mentes? Leram até aqui?? Bravo!
Ora, o que vos posso relembrar para que me possam acompanhar confortavelmente durante os próximos degraus? Bom, posso recordar-vos que certamente já terão visto o tal brilho nos olhos de alguém, a metáfora da faísca, o estímulo. Sim, já devem ter tido vontade de gritar e fugir, ou não teriam lido até aqui. Posso-vos também recordar que não sabemos nada, somos demasiado pequenos para saber seja o que for. Posso-vos lembrar que todas as assumpções que possam ter feito durante toda a vossa vida estão erradas, mais não seja por não terem qualquer tipo de confirmação – os vossos olhos não conseguem ver. Esqueçam o que sabem – tanto quanto vos posso dizer é que nem podem ter a certeza que realmente existem, ou que o mundo existe, ou que o vosso deus existe. Posso-vos recordar que não sou um pastor nem tento espalhar religiões. Não quero o vosso dinheiro nem planeio criar um culto. Estou a partilhar um ponto de vista e podem fechar o livro assim que bem entenderem. Podem-se recordar também que, partindo do pressuposto que pelo menos existimos neste planeta e somos seres vivos de base orgânica de carbono e água (e, claro, energia... mas nada esotérico, estou a falar de Físico-Química, átomos e moléculas, iões e protões e electrões... muitos electrões...), partindo deste minúsculo pressuposto, somos uma espécie jovem e burra, como qualquer adolescente que goza com os mais velhos e se julga o maior só porque já tem pêlos púbicos e até houve uma vez que fumou um cigarro às escondidas com o amigo, atrás da escola. Finalmente, podem relembrar e absorver bem fundo esta dica: só há duas coisas que realmente importa reter na cabeça durante a caminhada – devir – nada é o que foi e nada será o que é, tudo é uma constante mudança, tudo é um rio que corre para o mar. Estamos em constante evolução e mesmo quando deixarmos de existir, tudo o resto irá continuar a mudar – e gnosis – tudo é Conhecimento, a chave para a nossa evolução enquanto ser vivo individual e enquanto espécie é o Conhecimento. Devemos procurar a Salvação pelo Conhecimento, uma salvação de nós próprios. Não tem nada a ver com religião e divindades. As noções de gnosticismo não podem ser levadas à letra aqui. Somos seres vivos dotados de um espírito, o espírito humano, vivo e vibrante, sempre em mudança. Não há deuses nem profetas, há apenas uma busca pelo Conhecimento supremo, que nos trará todas as respostas e nos fará sentir completos e excelentes.
Os próximos degraus irão condensar toda esta linha de pensamento.
15 June 2010
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