29 June 2010

IMATURIDADE

Ainda se lembram das primeiras questões que surgiram no início deste roteiro da Última Doutrina para a Excelência humana? Ainda se recordam do mote para o caminho da Utopia?

Afinal, o que sonham? O que buscam?

Liberdade? Felicidade? Amor? Verdade?

Agora, respirando fundo, perguntem-se: o que são os sonhos? Porque existem? Porque hei-de buscar algo? O que me move? O que é a liberdade? Serei livre? E feliz? Tenho tudo o preciso? Porque acho que preciso de algo? Como posso definir o conceito de necessidade ou diferenciá-lo do conceito de felicidade? E o amor? Será que sabemos o que é? É tudo aquilo que dizem? Existe, sequer? E... verdade... o que é isto? Como a distinguimos? Existirá uma Verdade Absoluta?

Respirem fundo de novo. Acalmem as perguntas. Este é um dos grandes segredos aprendidos – não vale a pena perseguir as respostas, pois elas encontrar-nos-ão quando as conseguirmos ver.

Para realmente compreendermos tudo temos que começar a compreender do zero. Porém, deparamo-nos com um problema: a nossa (i)maturidade não nos permite perceber onde realmente estamos. Nem onde é o zero. O nosso grau de desenvolvimento enquanto espécie e a nossa aprendizagem pessoal e social não nos deixa realmente ver em que patamar estamos e a nossa visão analítica fica inegavelmente distorcida. Esta distorção cognitiva é absolutamente normal – trata-se de uma distorção provocada pela tentativa de analisar degraus que estão para além do patamar evolutivo da nossa consciência. Este erro é praticado de forma inconsciente e é comum a toda a espécie.

Extrapolando, podemos assumir que a consciência é uma capacidade cerebral e, como tal, é inerente a todos os seres vivos que a possuam. Esta assumpção é perigosa (como todas). Por exemplo, a definição de consciência aceite em todos os meios é a de uma mente humana capaz de se perceber como o “eu” e de perceber o que rodeia o “eu”. Isto anula prontamente a primeira premissa descrita neste parágrafo e, assim sendo, apenas o ser humano é consciente. Poderíamos ainda argumentar que outros seres vivos podem ter consciência sub-desenvolvida, tornando tudo uma questão de escalas, ou então argumentar que nem todos os humanos têm de facto capacidade cognitiva suficiente para ser conscientes. Tudo meras suposições e conjecturas de séculos de conhecimento empacotado com uma pitada (grande) de senso comum.

Cogito ergo sum, podemos começar por aqui. Como ser pensante que sou, humano ou não, tenho uma consciência. Ponto. Então, como vamos definir o pensamento? Instintos são pensamento? E como podemos definir instintos? Apenas são instintos aqueles que advêm do cérebro, ou impulsos eléctricos que potenciam a locomoção de um invertebrado acéfalo também o são?

Calma... tantas perguntas... vamos estabelecer o nosso ponto zero. Cogito ergo sum. A Consciência pode ser definida como o acto de pensar de forma válida e activa com recurso a um cérebro orgânico vivo. Desta forma podemos estruturar as nossas ideias nesta direcção, fugindo a outras dissertações (não vamos falar de inconsciência nem de consciência artificial).

O ponto zero – o Instinto. Este instinto refere-se ao dos seres pensantes capazes de ser conscientes. Não constitui por si só uma fonte de consciência mas é a faísca para todos os níveis mais avançados. A evolução da consciência estratifica-se em camadas, onde cada camada adquirida sobrepõe-se de forma cumulativa e cooperativa às anteriores. Com o Instinto, o Indivíduo usa as capacidades intrínsecas à sua condição para adquirir e garantir algumas das suas necessidades básicas, tais como comida, refúgio ou parceiros sexuais. Não possui qualquer tipo de entendimento do mundo que o rodeia, pelo que não se trata de o aceitar como ele é – limita-se a assegurar as suas necessidades básicas a qualquer custo. Trata-se de um estado de consciência associado à percepção. O Instinto é o mais básico dos estados de consciência e estará sempre presente e activo por mais níveis que subamos na escala. Este é um estado que julgamos latente mas que se espelha em todas as acções que fazemos. De facto, é muito comum ouvirmos falar na suposta importância de reprimirmos os nossos instintos, esta é a ideia incutida pela nossa sociedade. Pensar que podemos asfixiar o Instinto, no nosso actual estado evolutivo, é uma burrice e uma insensatez – o Instinto é o que nos mantém vivos.

O Instinto potencia o segundo nível de consciência – a Sobrevivência. Enquanto o Instinto é inato, a consciência de sobrevivência não o é. Ambos são facilmente confundidos, mas na verdade a sobrevivência diz respeito ao facto de o Indivíduo procurar assegurar, dentro do seu meio, o máximo de recursos para prolongar e facilitar a sua vida. Procura ter um entendimento racional daquilo que o rodeia, mas com o objectivo de assegurar prosperidade própria e para os seus descendentes. Trata-se de um nível de transição entre o instinto puro e a procura de níveis superiores de maturidade da consciência. A generalidade dos académicos não dissocia estes dois níveis, ou no limite referem-se a eles como complementares. Eu defendo que a consciência de Sobrevivência é a parte não-inata do Instinto. Este é o último nível alcançável para seres isolados e sem qualquer contacto com outros da mesma espécie (ou espécies mais evoluídas). Trata-se de um estado de consciência de relacionamento para com a percepção.

A Aceitação é o terceiro nível. O Indivíduo, após ver a sua sobrevivência assegurada, tem a necessidade de se sentir aceite e respeitado, quando vive em sociedade. Entende as condicionantes do meio em que se insere e sabe que parte da sobrevivência é assegurada através do respeito que o resto da comunidade nutre por ele. É um nível de atitude em relação ao relacionamento. Este nível de consciência só é alcançável quando os dois anteriores estão firmemente cimentados e é o primeiro dos níveis de consciência social.

O quarto nível e último da Imaturidade da Consciência é a Realização ou Prazer. Uma vez aceite pelos seus pares, o Indivíduo procura agora a aceitação do ego. Conhece as regras da sociedade e aceita-as de forma inquestionável, mas ao ter os níveis anteriores assegurados começa a perceber que existe uma meta por atingir e uma busca a ser feita – a busca da felicidade – que pode ser interpretada como uma crescente busca de bem-estar e realização pessoal. É um nível de obtenção ou realização face à atitude.

A Humanidade, de uma forma geral, tem estes quatro níveis de consciência bem desenvolvidos. Mas apenas uma franja muito ténue começa a amadurecer para o próximo nível.

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