18 January 2012

O QUE SABEMOS

De todas as grandes questões já colocadas, assim como de todas as questões já colocadas pela Humanidade, esta poderá ser aquela que, embora não tão pertinente como outras, tem um peso esmagador no que concerne ao simbolismo da busca do Conhecimento absoluto. Pois, se não soubermos responder a esta questão, poder-se-á por em causa a continuidade da busca em si.

É certo que o existencialismo, mais do que o racionalismo, é a pedra de toque para definir um conjunto de premissas fundamentais para entender o ser humano e o mundo que o rodeia. Mas é imperativo compreender e aceitar a mais básica das premissas e, para isso, há que a questionar primeiro – sem isto, nada feito.

Portanto, voltando atrás, o que sou? Quem sou? O que é a realidade? É aquilo que posso sentir ou pressentir? Defino o que é real pelo que vejo ou ouço? Serão os sentidos que distinguem o que é verdade do que é mentira? Como sei que não sou um peão dum jogo que não é meu? Ou serei apenas eu neste jogo, e todos os outros peões do meu próprio jogo? Estaria aí a realidade desmontada e desprovida de qualquer sentido? Porquê? Por mais aceites e respondidas que estas questões estejam, é necessário compreender que estes espaços em branco foram preenchidos pelos nossos dogmas e, em última análise, pelo nosso ego. Aliás, desde o momento em que nascemos até ao momento em que morremos, o ego é o manda-chuva do jogo e o nosso corpo é apenas o avatar que canta e sofre e ri. Esta máquina cujo processador central é a nossa já conhecida e sedenta consciência, absorve todo o tipo de experiências e sensações, toda a informação a cru. Quando nascemos somos uma folha em branco, mas à medida que vamos crescendo o ego vai escrevendo em nós as influências da sociedade, as boas e más experiências, as alegrias e frustrações. Se o ego se alimentar de coisas boas, seremos bons. Contudo, entendamos que para compreender esta problemática é imperativo compreender o ego, e mais tarde ver para além dele. Alguns defendem a morte do ego, mas isso é tão absurdo como viajar num avião sem piloto. Ao invés disso, bastará “apenas” compreender como o ego funciona, saber do que se alimentou, e ver para além dele, porque é ele o condicionador mas também o piloto. A destruição do filtro do pensamento que faz com que tudo nos chegue já traduzido e impuro, tem de ser feita com cuidado, sob a pena de perder a razão e cair na loucura – ao deixar cair este filtro, o ego livre permitirá a compreensão imediata da realidade. De novo, as questões do início do parágrafo podem ser respondidas com a certeza de uma mente livre.

Para continuarmos, recuperemos o existencialismo. O que sabemos na verdade é o conjunto de todas as experiências humanas apreendidas por nós desde o dia em que nascemos. A nossa consciência potencia o pensamento sistémico ao mesmo tempo que as nossas vivências cruzam toda a informação absorvida numa malha inquietante e desorientadora. Daqui surgem todas as questões, e também todas as características do ego. São estas características que irão ditar a nossa personalidade e a forma como vamos viver a nossa vida – calmamente e sem grandes dilemas, ou intensamente e com grandes sobressaltos. Mais, estas são as características que ditam se vamos percorrer o Caminho ou não. Poderá parecer que isto significaria que a predisposição para percorrer o Caminho seria algo inato, guardado para os predestinados... mas antes pelo contrário, pois se estas características são ganhas pela constante absorção de influências externas, isto só provará a existência do Estímulo. Com o ego treinado, livre de dogmas, é possível caminhar em busca da Verdade e viver a vida de aberta e apaixonadamente, longe de negativismos e preconceitos e ódio.

Então, resumidamente, o que sabemos afinal? Primeiro, sabemos que existimos e que o que nos rodeia também existe. Sabemos que somos seres vivos dotados de consciência, que vão ganhando e processando informação desse mundo que os rodeia, de modo a que por ela sejamos moldados. Sabemos que a dado momento sentimos a necessidade de compreender as coisas e asfixia-nos não saber a resposta a questões. Sabemos que o caminho para responder a essas questões obriga ao conhecimento prévio do Eu e só depois do Mundo. Sabemos que o Conhecimento, assim como o Eu, e o Mundo, estão em constante mudança, e que só o domínio destas matérias nos permite ver todos estes assuntos como um só sistema, e compreendê-lo, e mudá-lo (ou melhorá-lo).

“Só sei que nada sei.” Sócrates.

31 December 2011

Um feliz ano de 2012 para mim, e já agora para todos aqueles que não são eu.

Beijos e abraços para todos, para os que estão perto, para os que estão longe, e para os que não estão mas continuam a estar. Todos sabem que hoje é um dia como os outros, mas também todos sabem que esta é a noite de pensarmos o quanto gostamos de alguém ou o quanto sentimos falta de alguém. Ou, pelo menos, um bom pretexto para sorrir e esperar que amanhã seja um dia melhor.

Desejo uma boa noite a todos.

28 December 2011

Muito em breve..............

27 October 2011

A NOSSA MÃO

A cada passo dado, novos desafios surgem. A cada resposta conquistada, novas inquietações. Para quê? Porquê? Que espírito faminto é este que tanto de nós consome, que nem nos deixa viver em paz? Porque não podemos nós estar sentados numa pedra a contemplar inocentemente o mundo, sem que isso nos afecte de uma forma tão arrebatadora e doentia? Não seria tudo tão mais fácil se fossemos formatados para não amar, não sofrer, não questionar? Mais fácil sim, certamente. Mas seria melhor? Ou pior? Ou igual?

Depois de tantos degraus, sinto-me cansado. Apetece-me descansar. Estou exausto.

O que vejo existe? Como distingo o real do imaginário, o bom do mau, o certo do errado? Como sei que não sou um sonho, ou um sonho dentro dum sonho, ou o sonho de alguém? Serei eu o teu sonho ou tu o meu sonho? Ou será que somos sequer? Eu existo? E se existo, onde existo? E como existo? Estou tão cansado que nem me atrevo a perguntar agora o “porque existo?”... Mas, seremos tudo isto que pensamos que somos? Ou seremos apenas um resíduo de tudo o resto? Será o nosso universo (caso exista e não seja produto do meu sonho), apenas a parte de dentro da mais ínfima partícula, e fora dela tantas outras partículas como universos? E realidades? Serei eu sempre? Serei só um? Sempre? Durante quanto tempo? Num ciclo infinito, ou numa linha perpétua? Ou, simplesmente, um ser que nasce, vive e morre num planeta previsível que não se regenera e numa realidade que não se perpetua?

Vamos descansar, talvez fazer um ponto de situação.

Admitamos a doutrina do devir e gnosis dentro de nós – ainda que não o possamos comprovar pela experiência mas sim por um conjunto estruturado de premissas, existimos de facto dentro dum universo que também existe, e evoluímos enquanto criaturas reais num planeta habitável, tendo sido dotados pelas evoluções genéticas de um cérebro capaz de racionalizar e tornar-se consciente do ego, circum ego e status quo. Para além dessa evolução natural enquanto espécie, e decorrente da supra-consciencialização, surge um entendimento alargado da própria existência como um todo, percebendo aos poucos que fazemos parte de um conjunto simbiótico de elementos que também nascem, vivem e morrem, e que ao morrer dão lugar a outros que por sua vez nascem e vivem e morrem. Estas criaturas reais, nós, sabemos que estamos em constante mutação e transformação, muito para além da Evolução, e que somos feitos da mesma massa que tudo o que nos rodeia e que este actual estado é apenas mais um, cabendo a nós dar-lhe a importância e uso que bem entendermos. Em resumo, somos seres luminosos e espirituais capazes de (e construídos para) compreender. Somos máquinas desenhadas para devorar conhecimento, e evoluir com ele, mas sem que haja necessariamente um propósito.

A nossa consciência foi evoluindo, mas o espírito não – ele sempre esteve cá, simplesmente não sabíamos. Ele não é imutável, como nada é, mas a matéria-prima é a mesma.

Evoluindo, a consciência humana deixou de ser aos poucos uma amálgama imatura de regras e foi sendo compreendida e moldada, primeiro pela necessidade e depois pela convivência, crescendo exponencialmente e alicerçando-se sobre si própria, ameaçando (es)tender para o infinito. O Holismo, a Imersão, o Amor e a Verdade, são a sabedoria absoluta, o culminar da caminhada – infinitos mas impossíveis de tentar deixar de alcançar. Aceitar isto e ainda assim prosseguir é a maior das virtudes.

O que com o nosso Olho conseguíamos enxergar, agora podemos tocar. Sabemos o que está ao alcance da nossa Mão, basta estender o braço. Tomando como certo o caminho percorrido, porque não faria sentido de outra forma, é tempo não só de ver o mundo de outra forma (e nós inclusive), mas de moldá-lo também (e a nós próprios, claro).

Olhando e aceitando, moldando e focando e compreendendo, evoluindo e olhando e aceitando outra vez, o que estamos nós a fazer? A moldar a nossa realidade? Mas isso não fará com que ela deixe de ser a “realidade de todos” e passe a ser a minha? Não estaremos a caminhar para a clausura espiritual, para a esquizofrenia, para a demência? Como sei que não estou a construir sobre premissas erradas? Qual é o meu referencial, o meu mapa?

Para isto a resposta é demasiado simples – aceitar o devir e gnosis não é aceitar um conceito oco. Trata-se de compreender que vamos evoluindo espiritualmente enquanto seres conscientes, pela via do Conhecimento e da absoluta Compreensão de tudo o que queremos assimilar e vamos deixando para trás como adquirido. É como se para construir o segundo piso de um edifício, o primeiro tenha de estar completamente cimentado.

Quanto ao foco, ele tem obrigatoriamente de estar orientado para o devir e gnosis, pois é esta doutrina que determina o Caminho. O foco determina invariavelmente a realidade, então se focarmos em bananas, a realidade é bananas. Focando uma realidade, seja devir e gnosis ou simplesmente bananas, está gerado automaticamente um significado e, consequentemente, somos conduzidos nesse caminho. Eventualmente, talvez mesmo naturalmente, acabaremos por moldar a banana, a casca da banana e a bananeira, ou dito de outra forma, o ego, o circum ego e o status quo. Não é esse o objectivo, mas acontecerá. Ainda bem, talvez.

E se, algo houver de errado nesta equação? E se vier a vertigem? A paranóia? Aceitaremos humildemente a derrota? Ou lutaremos até ao fim enquanto vemos a torre tombar debaixo dos nossos pés?

Vamos descansar, respirar fundo e gozar o momento.


“Não tenhas medo da perfeição – jamais a alcançarás.” Salvador Dali.

09 August 2011

SUBLIMAÇÃO

Por fim, a Sublimação.

Até aqui falámos dos doze patamares da consciência humana mais fáceis de compreender, e assim o são porque duma maneira ou doutra já os conseguimos experimentar a espaços, não duma forma transversal a toda a espécie por motivos socio-culturais, mas por causa do nosso estágio avançado de evolução.

Mas faltam os últimos quatro, aqueles a que a mente humana aspira sem nós sabermos.

Lembram-se dos primeiros degraus que subiram? Lá atrás na infância? E aqui, nesta nossa viagem? Lá, como cá, falávamos do nosso desejo asfixiado de compreender, de ver para lá do que os olhos podem ver, do que apenas podemos sentir mas não explicar.

Recordam o aperto no peito, já sentiram o abraço do nada? Já sorriram a chorar? Porque temos sensações que não podemos explicar? Porque por mais que a nossa alma coma, há sempre lá um vazio?

É a Sublimação.

Começamos pelo degrau mais alto a que a nossa percepção pode atingir – o Holismo. Um dia talvez iremos compreender o que somos, onde estamos e porque estamos. Um dia, quem sabe, iremos compreender que somos um grão de areia, somos parte do todo. A nossa percepção do que nos rodeia irá conseguir levar-nos a ver sem extrapolar, a sentir sem intuir. Iremos conseguir sair do nosso corpo e ver o quadro completo. Sem metáforas. Somos uma peça do sistema, mas agora ainda só o conseguimos pressentir. O Holismo é o patamar onde não conseguimos explicar a biologia da planta, sem explicar a do solo e do ar e da água e do sol, nada poderemos explicar a não ser pela soma dos componentes, pois ao serem independentes nada significam. O humano Holista consegue compreender a própria existência, pois sabe que não somos dissociáveis uns dos outros, pois sabe que as causas de uma determinada matéria não são explicáveis por um conjunto circunscrito de factores óbvios, pois tudo faz parte dum sistema que se influencia a si próprio.

Depois disto, surge a nossa relação para esta percepção máxima das coisas. Se somos mestres a dominar a arte da percepção, de que forma nos iremos relacionar? Pela aspiração máxima da relação entre dois seres – a Imersão. A Simbiose torna-nos uns colaboradores natos, pois não só nos unimos para cooperar, como tornamo-nos interdependentes. Pois, a Imersão leva o conceito ao limite, pois admite o conceito de fusão. Na Imersão, a capacidade de comunicação e interacção é tão forte que a troca de informação dá-se a nível sensorial, ou mesmo fisiológico. A comunicação verbal ou escrita há muito que se foi, e como o Holismo permite-nos compreender a realidade fora do ego, a Imersão permite-nos fundir esforços para atingir um objectivo comum, ou simplesmente partilhar uma experiência.

E qual a nossa atitude perante tal relação? Como lidar emocionalmente com essa invasão? Como definir tal aproximação e tal ligação? Bom... alguém a dada altura já se terá sentido apaixonado, por um marido ou mulher, amante, filho, pai, irmão, amigo, divindade, animal de estimação... então pergunto-vos: o que é para vocês o Amor? O que é amar? O que é sentir o Amor dentro de vocês? Pode o Amor ser explicado? Pergunto-vos então, não vos querendo ferir: existe algum tipo de amor que actualmente não possa ser explicado pela Ciência? Ou, dizendo de outra forma, alguém duvida que o Amor como o conhecemos é o resultado químico de uma forte empatia que deriva de uma reacção do Instinto? Ou menos cruelmente, já pensaram porque no amor conjugal não o conseguimos dissociar do sexo? Não me interpretem mal, o Amor como o conhecemos hoje é um sentimento nobre e forte, que é mais do que apenas química e instinto. Mas não é o Amor absoluto e incondicional. O conceito cristão de “amar o próximo” jamais foi ou será levado à letra, até que a evolução da consciência humana atinja o nível do Amor. Então, que Amor Máximo é este? Não sei explicá-lo, claro, mas... imaginem-se a amar tudo o que os rodeia: o cão, o vizinho, as rosas do quintal, as nuvens ou a chuva. Certamente o nosso coração iria explodir se isso nos caísse hoje no colo, mas quiçá no futuro os humanos consigam-se amar sem contemplações, partilhando tudo para o bem comum, pensando no bem comum, interagindo e sentindo em conjunto, em harmonia com tudo o que os rodeia.

Mas, o que é que “os rodeia”? Já conseguimos compreender isso neste nível? Já chegámos à Verdade absoluta? Pois, o último nível da escala da compreensão humana, o zénite da nossa consciência enquanto espécie, será atingido quando todas as barreiras caírem e conseguirmos ver a Verdade. A Verdade é a última realização em relação à atitude. Morreriam de espanto se chegassem lá e vissem que nada disto existe? Que é tudo um sonho sem sentido e sem propósito? Um jogo sem fim? Nem poderei conjecturar de forma séria a Verdade no meu estado actual de consciência, infelizmente, pois tenho mil e uma teorias a correr nas veias. Mas será esta Verdade a resposta final e disso não tenho dúvidas.

Não chegaremos lá de forma consolidada, é uma questão de evolução natural. Levará talvez Eras, portanto conformem-se.

A Sublimação é o suplantar das nossas actuais barreiras. Ver para lá deste muro agora seria como um homem do Paleolítico ver um programa televisivo – existem tantas premissas por descobrir e consolidar que parecer-nos-ia um sonho horrível demais para assimilar, não o poderíamos abarcar e certamente iríamos colapsar sobre nós próprios, admirados e chocados, felizes e tristes, uma mente confusa e perdida no tempo, que desfruta uma viagem de mil anos em breves segundos e quando regressa não sabe explicar o que viu.

Podemos, claro, pelo esforço ou pela batota, tentar espreitar o muro,... fará mais bem do que mal, certamente. Irá apressar o destruir destas barreiras? Conseguirá precipitar esta evolução? E será que queremos mesmo apressar a evolução? Será benéfico? Pois, não sei... mas é a curiosidade e o ímpeto que nos move. E mais, não vejo como a evolução nos pode fazer mal, não é ela que tem a capacidade de nos magoar, nós próprios é que vulgarmente o fazemos.

“Se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria ao homem tal como é, infinito. Pois o homem fechou-se a si próprio, e agora vê tudo através de estreias fendas na sua caverna.” Aldous Huxley.

27 June 2011

TRANSCENDÊNCIA

Muito para além das nossa actual capacidades, estendem-se vales e montanhas demais importantes para serem esquecidos. Se a nossa raça não se auto-destruir nem for obliterada por um asteróide ou um vírus, certamente haveremos de lá chegar - eu, pelo menos, gosto de acreditar que sim.

O Esclarecimento de uma consciência madura traz-nos tranquilidade e aceitação para compreender o que nos rodeia, bem como a humildade para questionar essa mesma compreensão. Na transcendência, vamos muito para além do que os olhos conseguem ver. A gnose não religiosa consegue-nos catapultar muito para além das fronteiras do Esclarecimento, assim o queiramos. Os conceitos de corpo e alma, de realidade e ilusão ou de espaço e tempo, misturam-se como tintas de todas as cores numa tela quando falamos de Transcendência.

Mas, o que é isto da Transcendência? Como pode a nossa consciência evoluir para além dos limites do Esclarecimento? Que grau de compreensão e introspecção é necessário para ir ainda mais além?

Para compreender a própria Transcendência e a aceitarmos e nos deixarmos levar por ela, temos de (quase) esquecer tudo o que sabemos desde que (pensamos que) nascemos. É aqui que começamos realmente a questionar a própria existência do ego, a questionar o motivo e não apenas a mecânica. Para aceitar a Transcendência, há que fazer uma purga no próprio espírito. Não vejo forma de tomar um breve vislumbre do que isto será, sem usar grandes doses de meditação e sem nos desprendermos da realidade. Quiçá no futuro muito distante a Transcendência seja uma capacidade inata da espécie, algo que atingimos espontaneamente na puberdade. Agora, só com muita predisposição mental (porventura com um pequeno empurrão químico), poderemos aspirar a ver o que há do outro lado do muro.

Mas, usando este trampolim cognitivo para espreitar mais além, vamos ver o quê? Eu diria,... a Sublimação.

02 May 2011

ESCLARECIMENTO

Após termos avançado na descrição da escala da evolução da consciência, chegámos enfim ao culminar de todos os ensinamentos. Este é o ponto em que aceitamos o que somos e compreendemos o que nos rodeia. Dar-me-ia por feliz se a Humanidade atingisse este patamar evolutivo até ao fim desta Era.

Este terceiro nível (sendo o primeiro a Imaturidade e o segundo a Sensibilização), também pode ser definido como a Iluminação, embora prefira fugir a esse perigoso rótulo. Não se trata de um nível onde se adquire qualquer estado de graça ou bênção, quanto muito uma bênção cósmica que nos acalma e dá serenidade para perceber um pouco do nosso papel. Mais importante do que atingir um estado de consciência maduro, o Esclarecimento deve trazer a calma para perceber o Mundo e o Eu.

Em termos de percepção, é aqui que cimentamos a Compreensão – tal não significa que compreendamos tudo ou isto ou aquilo, mas é onde o indivíduo compreende se compreende, ou se pelo menos tem a humildade de continuar a tentar compreender. Já estamos muito longe da simples Percepção, mas é certo que partilham a mesma raiz – o Instinto.

Na relação para com a percepção, evoluímos da Colaboração para um nível em que não apenas interagimos com o grupo para proveito do todo, mas sobretudo tornou-se uma necessidade intrínseca. Este nível é a Simbiose. Aqui não procuramos o grupo para resolver um problema, aqui somos sempre o grupo, indivisível. Somos irmãos. Pergunto-vos: se estivéssemos a enfrentar uma grande calamidade, quem tentaríamos salvar primeiro? Quase todos elegem a família como grupo a resguardar numa situação de risco. Numa sociedade simbiótica perde-se o conceito de família, necessariamente. Somos produto do grupo, é com ele que nascemos e crescemos e aprendemos. Eventualmente, os códigos tenderão a evoluir e a simplificar a comunicação, já estaremos muito longe de quaisquer diferenças mesquinhas como a cor ou o credo. Diferentes, obrigatoriamente, mas complementares.

Na atitude para com a relação, este nível traz-nos a Ligação. A Empatia evolui para um ponto em que se torna difícil perceber o que é o interesse individual. Aqui, as relações químicas que hoje nos aproximam ou repulsam, irão ser severamente moldadas pelo sentimento de Ligação. Uma consciência evoluída irá tentar compreender as diferenças e faz uma gestão inteligente da relação entre indivíduos do mesmo grupo – ao contrário dos dias de hoje, em que a falta de compreensão que gera à quebra da empatia dá origem a sentimentos primários e adversos, como a agressividade hostil ou mesmo o ódio.

Finalmente, na realização em relação à atitude, este nível permite-nos finalmente reconhecer aquilo que tem sido a nossa busca – a Felicidade.
Então, se atingirmos a Iluminação, seremos finalmente felizes?

Não. Não procurem a Iluminação em busca da felicidade. Os seres humanos nunca serão felizes e nunca estarão satisfeitos. O Esclarecimento permite-nos apenas reconhecer que, calma e ponderadamente, podemos sentir felicidade em relação à forma como a nossa atitude nos leva a atingir metas. A Felicidade é uma paz de espírito superior, enraizada no Prazer e da qual o sentimento de Realização evoluiu.

Olhando para estes quatro estados – Compreensão, Simbiose, Ligação e Felicidade – achamos que pelo menos o primeiro e o quarto atingimos constantemente, enquanto que o segundo e o terceiro nem temos assim tanta vontade de os atingir. Este é o estado actual da generalidade das pessoas – achamos que percebemos de muita coisa (embora tenhamos a tendência para querer admitir que não, porque socialmente é bom ser-se humilde), achamos que nos relacionamos quanto-baste com as pessoas ao nosso redor, defendemos a pátria e a família, a equipa, a igreja, a empresa... mas os que estão do lado de fora são inimigos. Ou pelo menos concorrentes, adversários. Ainda assim lutamos para a paz no mundo, desde que os concorrentes e adversários não tentem saltar o muro do nosso quintal. E quanto à Felicidade, sabemos que somos felizes ou infelizes, ou que já fomos infelizes e que queremos ser felizes. Havemos sempre de tentar ser felizes e escorregar aqui e ali, sendo infelizes, mas sabendo que lá ao fundo quando já formos velhos iremos ser muito felizes, seja lá o que isso for.

Não, não somos felizes. Não, ainda não estamos no Esclarecimento. Procurem serenamente perceber o que somos e o que realmente importa. E, acima de tudo, não deixem que vos tentem convencer daquilo que são, cada um tem que se auto-interpretar. Não sigam as regras sem as questionar, não se deixem guiar nem automatizar. Respirem fundo e perguntem-se, mudem, não tenham medo de mudar. Percebam-se e percebam o que os rodeia, sem afastar quem vos rodeia. Colaborem. O problema não está nos outros, mas em vocês. Sintam que fazem parte deste grupo que é composto por tudo o que nos rodeia, e que em cada ser humano há alguém que deve fazer o caminho de mão dada connosco (pode é não o saber) - mas não o tentem convencer nem o tentem mudar. Deixem de lado as diferenças, o rancor, o ódio. Desfrutem. Sintam-se realizados e felizes com cada passo que dão, aprendam e partilhem os vossos erros. Aí sim, estarão no caminho certo para o Esclarecimento.

15 February 2011

Adenda: Este é o teu momento

Aqui e ali, recorrentemente, esbarramos em problemas. Pensamos que estamos fracos, inventamos muralhas e montanhas, espinhos e pregos e pragas.

Vejo amigos e conhecidos e anónimos, pessoas de bem ou nem tanto, mulheres e homens, velhos e crianças, pobres e ricos, judeus cristãos e outros nem tão(s)... todos parecem tristes, quando não estão felizes. Julgam-se capazes de lutar, ou sentam-se a definhar. Mas queixam-se. Dizem que a vida não lhes dá tempo para vier. E procuram, buscam não sabem bem o quê, na esperança de coisas melhores.

Recordamos quem já fomos heróis, heróis de muitas guerras. Sentimos a saudade, a eterna saudade de algo que afinal não partiu, simplesmente está atrás da muralha.
Então, compreende, não percas o teu tempo em busca do que já passou. Este é o teu momento.

http://www.youtube.com/watch?v=cOVzXYEU3Bk

23 January 2011

COMPREENSÃO

Ao falarmos sobre a problemática da evolução da consciência, existe um termo que define a fronteira entre o não-ser e o ser, entre o parecido e o real. Esse termo é a Compreensão.

A Compreensão é a segunda grande fronteira da evolução do Conhecimento (sendo que a primeira é o Amadurecimento). Esta fronteira determina a diferença entre o real conhecimento e a mera percepção – quando dizemos “eu percebo o que me dizes”, estamos a informar que recebemos e assimilámos o conteúdo da mensagem, de uma forma sintática e semântica. Ao percebermos algo, estamos a afirmar que acabámos de adquirir a percepção em relação a um determinado assunto ou ponto de vista. Porém, ao dizermos “eu compreendo o que me dizes”, estamos a assumir um nível de comprometimento muito superior, no que concerne ao assunto que nos é apresentado.

Esta diferença não é meramente semântica. As palavras “Conhecimento” e “Compreensão” são desbaratadas nos dias de hoje. Não digo que não deva ser assim, apenas digo que se perdeu uma definição para aquilo que a palavra realmente deveria (ou não) significar. Eu compreendo quando, inexoravelmente, domino o assunto de todos os pontos de vista. Aqui uso a palavra “assunto” para sintetizar como sujeito todo e qualquer objecto de análise, seja físico ou intangível. Por exemplo, ao dizermos “eu Compreendo o funcionamento da Roda”, estamos a assumir que dominamos sem margem de dúvida todos e quaisquer aspectos da mecânica física e quântica associada ao objecto enquanto conceito material – estamos a falar de todas as variações mecânicas (materiais, performance ambiental,...). Mesmo um grande engenheiro tem sérias dificuldades em poder argumentar que compreende o funcionamento da Roda. Poderá ele saber inexoravelmente todas as nuances matemáticas envolvidas? Ou reconhecer o comportamento do objecto sob qualquer ponto de vista? Não precisará de Conhecimentos prévios?

A Compreensão de um determinado assunto não pressupõe genialidade, nem pensamentos esotéricos guardados aos predestinados – mas pressupõe o foco mental do assunto no “Eu” – Eu domino o tema, inexoravelmente.

Portanto, inexoravelmente, poderemos dizer que a compreensão pode ser absoluta, para um determinado assunto? Bom, talvez não, mas será mais fácil entendê-lo como um processo de melhoria contínua e não como uma meta – trata-se mais do “querer” do que o “ser”. É como se procurássemos a resposta, com ou sem a ajuda dos nossos pares, sabendo que cada passo em direcção da compreensão absoluta nos trará mais certezas, e que mesmo os desenganos só servirão para compreender o assunto de novas formas e, ultimamente, para chegar à Compreensão absoluta.

A Compreensão faz a ponte entre a Sensibilização e a Iluminação – é o salto na consciência que nos leva a tomar consciência sensível dum assunto e querê-lo absorver de todas as formas. Sendo um processo, desconfiai dos que dizem que compreendem... pois esses devem ser os falsos iluminados. Quem caminha os degraus saberá que procura compreender. A Compreensão poderá ser facilmente interpretada como uma conquista momentânea, não há como fugir a estar perspectiva. Posso achar que finalmente compreendi um assunto ou um ponto de vista a ele respeitante, mas há-que haver a humildade suficiente para questionar essa conquista e continuar a explorar. O segredo na procura deve ser, na minha humilde opinião, encontrar a paz de espírito em cada conquista, aceitando que aquele pode não ser o fim da procura e que certamente com o tempo outras perspectivas abrir-se-ão. Aceitar-nos-emos com o que somos e com o que não seremos.

20 January 2011

Adenda: A breve reflexão sobre o ser

És
simplesmente porque és
porque achas que deves ser
ou porque dizem que tens de ser
mas és.

E assim vais sendo,
ou pensando que és
definhando no vazio do ser
murchando e castrando o ser
até deixar de o ser
e depois já não és.

Mas entre o ser e o não ser
tentas ser o que não és
e tentas não ser o que és
e quando souberes que não és
aí, aí sim quererás ser.

28 December 2010

PROXIMO POST EM BREVE...




but meanwhile...




SENSIBILIZAÇÃO

Para grande parte dos ocidentais, ser sensível é ter compaixão e doar comida aos pobres, é chorar perante a dor dos outros da mesma maneira que num filme triste, é vestir roupa florida e apreciar Beethoven. Mas já Beethoven não acreditava nisto, porque vós acreditais?! Usamos chavões como “a vida é uma viagem” para consolar quem perdeu alguém, ou o vomitante “carpe diem” para justificar uma bebedeira. Porque somos sensíveis, dizem. Nós, os macacos sentados na ponta do foguetão, vamos rindo e chorando uns dos outros e pensamos que isso faz de nós... humanos.

Não, caros. Doamos comida aos pobres porque é mais fácil lavar as mãos e fingir que lhes matamos a fome para sempre – assim temos justificação moral para dizer que pelo menos fazemos algo para mudar o mundo, porque nos ensinaram a pensar que somos demasiado pequenos para fazer algo mais. Não, caros. Choramos perante a dor dos outros porque também nós não conseguimos aceitar nem compreender a morte, porque secretamente ainda acreditamos que a bisavó está a olhar ternamente cá para baixo. Não, caros. A vida é uma viagem talvez, mas nem desconfiamos que meio de transporte é este e muito menos qual o destino. Para muitos, expressões em latim são chiq.

Para mim, ser sensível significava ser mariquinhas. Agora, de certa forma, continua a ser. Que tal esta sugestão: parem de tentar ser mariquinhas por um pouco e tentem compreender o que está no fundo do lago. Spoiler alert: não é o vosso reflexo. Deus criou o Homem à Sua imagem, e logo a seguir revestiu-o com uma camada de ingenuidade e barrou-o com perguiça. E resultou, pois ainda hoje acreditamos Nele.

Sentem-se confortavelmente e respirem fundo. Recordem os degraus anteriores. Somos uma espécie adolescente que está a dar os primeiros passos em direcção à maturidade. Mas este processo de amadurecimento é lento e uma vez que a espécie está disseminada por todo o planeta e existem muitas condicionantes para uma evolução homogénea (que, curiosamente, ainda perpetuamos), temos de ter paciência para ir evoluindo e destapando o véu. Não somos burros nem teimosos, acho que estamos no sítio certo... impacientes, talvez. Disso sou culpado.

Agora, apresento-vos a próxima estação da nossa viagem na evolução da consciência – a Sensibilização. Ao contrário do que pareceu ser dito no início deste degrau, prometo que não vos tento converter ao “mariquismo”.

Antes de iniciar, percebamos que a Sensibilização é uma réplica da Imaturidade em termos de mecânica, mas completamente revolucionária em termos de compreensão (ou aproximação à compreensão). Então, da mesma forma que anteriormente, temos quatro níveis.

O primeiro de todos é a Percepção – pela primeira vez, a Humanidade começa a ter, de uma forma mais ou menos homogénea, percepção da realidade que os rodeia. Ainda não compreende e não pode ter a certeza que o que vê é real, mas pelo menos já percebe que aquilo que conhece pode ou não ser real. O Homem vê e questiona, à luz da Ciência e do seu conhecimento adquirido, e não com base em mitos e folclore. A Percepção é um entendimento subjectivo das coisas. Estudiosos, filósofos, xamãs, cientistas, muitos atingiram a Percepção. Não é uma exclusividade do nosso Século. Eles mostraram que a Percepção pode ser trabalhada, mas percebemos que talvez estivessem à frente do seu tempo. Hoje em dia, a famosa globalização trouxe alguns adventos que permitem à sociedade global comunicar-se mais ou menos livremente e explorar ideias e conceitos. Muitos (a maioria), ainda não tem acesso a estas correntes de conhecimento. Mas estão lançadas as bases para que isso seja possível em breve, espero.

O segundo é a Colaboração – é respeitante à forma como percepcionamos as coisas e a relação que temos nessa percepção. É como a Sobrevivência em termos mecânicos, mas dotada de um nível muito mais elevado de percepção do que nos rodeia. Quando um grupo de indivíduos atinge os mesmos patamares e se rege por um conjunto de valores semelhantes, tende a colaborar. É um comportamento social cooperativo, o chamado 2+2=5. Nas sociedades modernas, e um pouco por todas as sociedades antigas, há inúmeros tubos de ensaio deste tipo de relação, mas só agora parecem surgir mais frequentemente comunidades verdadeiramente altruístas que o fazem sem fins lucrativos nem por temor a nenhum deus. A Colaboração, tal como a Percepção, já é experimentada por muitos como indivíduos, mas só agora parece haver condições para se espalhar o suficiente para catalogar a espécie.

Da Colaboração poderemos afirmar que nascem as bases para a Empatia. A verdadeira Empatia, ao contrário do corriqueiro termo que nos faz parecer que somos todos amiguinhos uns dos outros, é uma atitude despojada de qualquer sentido material e sem nenhum propósito a atingir. Trata-se de uma atitude para com a relação entre membros da espécie e mesmo com outras espécies. A Empatia é um sentimento de paz que nos une, quando percebemos que ao colaborar somos todos iguais. A Empatia surge quando nos aceitamos sem reservas e não esperamos nada em troca. A Empatia é um sentimento constante e não um estado de espírito. Aqui, tal como nos outros níveis da Sensibilização, ou mais ainda, muito poucos já o atingiram e cimentaram.

E, finalmente, quando percebermos que se recolhermos os espinhos nos podemos aquecer uns aos outros, vamos sentir a Realização – uma meta relativamente à atitude ou à forma como olhamos para as coisas e para nós próprios. Só aqui vamos ser completamente Sensíveis, porque verdadeiramente sentimos o que somos e qual o nosso papel. Quase me atreveria a dizer que a Realização é, para já, o final da escala enquanto espécie, é o máximo que podemos aspirar em condições normais para os actuais patamares de evolução, e sem aditivos. Não me ocorrem muitos nomes que tenham verdadeiramente atingido este nível. Daqui para a frente vêm as planícies prometidas, a Iluminação pelo Conhecimento. Não é a iluminação dos fanáticos e grupos secretos que pintam quadros com vários significados ou desenham símbolos de soberba em notas sujas. A pureza lhes falta.

A Realização fecha o nosso ciclo até que chegue o fim da Era. Lá sentir-nos-emos... realizados.

07 July 2010

AMADURECIMENTO

O amadurecimento da nossa consciência é algo inevitável, não enquanto indivíduo mas enquanto espécie. No decorrer do tempo, a sociedade foi esculpida com uma forma piramidal e formatada de modo a que cada um dos seus estratos fosse homogéneo. Inicialmente, eu julgava que os estratos mais altos – a auto-intitulada “elite” – recolhia a maioria das condições que propiciam o amadurecimento da consciência. Depois, fui percebendo que essas tais condições não tinham qualquer relação com o desenvolvimento da consciência e que indivíduos de camadas inferiores também haviam já amadurecido. Agora consigo compreender que esse amadurecimento não é sequer condicionado pela sociedade, pois é algo intrínseco à nossa capacidade de pensar e ao poder do nosso cérebro.

Contudo, só compreendi de facto este aspecto que à partida parece absurdo quando consegui descobrir as respostas para a questão que a nossa cabeça dispara no momento prontamente a seguir a ter lido o parágrafo anterior: se a evolução para uma segunda escala de consciência, ou amadurecimento da consciência, é algo intrínseco e natural, poderiam os humanos simplesmente evoluir e ficar “maduros”, mesmo não vivendo em sociedade? Não continuaríamos seres brutos a escrever nas paredes das cavernas e a gritar para o ar brandindo um taco de madeira?

Bom... estaremos assim tão diferentes dessa altura?!

Vou repetir a frase de abertura deste degrau: O amadurecimento da nossa consciência é algo inevitável, não enquanto indivíduo mas enquanto espécie. Ou por outras palavras, este amadurecimento acontece naturalmente enquanto espécie, mas pode ser moldado e aprendido individualmente.

Mas a verdade é que, enquanto espécie que vive em sociedade, não evoluímos assim tanto... estamos no limiar da Sensibilização, no final da estrada da Imaturidade. Somos, como já disse anteriormente, uns adolescentes a transpirar impertinência. O nosso cérebro já evoluiu o suficiente para sobrevivermos e prosperarmos. Dominamos os elementos à nossa volta mas ainda não sabemos muito bem o que estamos a fazer. Porém, estamos numa fase evolucional de transição, e também social. É tempo de mudança, quer queiramos quer não. Em breve iremos todos atingir a Percepção.

Este nosso mundo, actualmente, é um óptimo tubo de ensaio para perceber estas mudanças in loco – elas estão a acontecer bem debaixo do nosso nariz e enquanto falamos. Infelizmente, o mundo está retalhado em centenas de países e religiões, cores e credos. As barreiras geográficas já não são desculpa mas ainda assim continuamos a dividir e a rotular. A “elite” continua a ditar guerras para manipular as rodas debaixo dos seus pés, mantendo a escassez e justificando o sistema económico actual. Apesar de estarmos a crescer todos ao mesmo ritmo enquanto espécie, estas diferenças que alguns querem perpetuar fazem parecer que não é assim. Mas é. A diferença é que nem todos têm tempo ou oportunidade de parar para pensar – é difícil ouvir o Estímulo se estivermos a morrer de fome ou Sida em África, ou enfiados doze horas num escritório em Banguecoque afogados em gráficos de barras.

Se fossem dadas as mesmas oportunidades a todos e não mais houvesse guerras, escassez, religiões, países e dinheiro, seríamos nesta altura todos exactamente iguais – sem ódio nem lutas, sem maldade. Não seríamos inocentes mas sim conscientes, maduros, Sensibilizados.

Alguns felizardos já tiveram o seu processo de amadurecimento. Gentes de todos os estratos, aqui e ali, já o conseguiram! Não é uma exclusividade da "elite" - aliás, estes têm muitos tiques que mostram que estão tão desenvolvidos ou menos ainda que os restantes... Como vivemos num mundo confuso e cheio de desigualdades, vai demorar até que este processo de transição seja visível para todos, mas aqui e ali já é possível testemunhar expressões involuntárias e desprovidas de segundas intenções – embora muitas ainda sejam, infelizmente, campanhas de marketing da “elite”.

Individualmente, se não quisermos esperar pelo comboio, basta ficarmos atentos ao nosso interior – este é o primeiro e mais fácil dos processos de transição evolucional da nossa consciência pois está a acontecer naturalmente neste momento e só temos de o escutar. Não é necessário meter roupa numa mochila, largar o emprego e fugir para as montanhas, basta ver menos televisão, basta ter coragem de mudar de vida se não formos felizes, basta ter respeito por todos os outros seres vivos e pelo planeta, basta libertarmo-nos das religiões e de fanatismos patrióticos. E, não mais importante que tudo isso, fazê-lo da forma mais humilde possível, lembrando-nos da nossa humilde e frágil condição humana.

29 June 2010

IMATURIDADE

Ainda se lembram das primeiras questões que surgiram no início deste roteiro da Última Doutrina para a Excelência humana? Ainda se recordam do mote para o caminho da Utopia?

Afinal, o que sonham? O que buscam?

Liberdade? Felicidade? Amor? Verdade?

Agora, respirando fundo, perguntem-se: o que são os sonhos? Porque existem? Porque hei-de buscar algo? O que me move? O que é a liberdade? Serei livre? E feliz? Tenho tudo o preciso? Porque acho que preciso de algo? Como posso definir o conceito de necessidade ou diferenciá-lo do conceito de felicidade? E o amor? Será que sabemos o que é? É tudo aquilo que dizem? Existe, sequer? E... verdade... o que é isto? Como a distinguimos? Existirá uma Verdade Absoluta?

Respirem fundo de novo. Acalmem as perguntas. Este é um dos grandes segredos aprendidos – não vale a pena perseguir as respostas, pois elas encontrar-nos-ão quando as conseguirmos ver.

Para realmente compreendermos tudo temos que começar a compreender do zero. Porém, deparamo-nos com um problema: a nossa (i)maturidade não nos permite perceber onde realmente estamos. Nem onde é o zero. O nosso grau de desenvolvimento enquanto espécie e a nossa aprendizagem pessoal e social não nos deixa realmente ver em que patamar estamos e a nossa visão analítica fica inegavelmente distorcida. Esta distorção cognitiva é absolutamente normal – trata-se de uma distorção provocada pela tentativa de analisar degraus que estão para além do patamar evolutivo da nossa consciência. Este erro é praticado de forma inconsciente e é comum a toda a espécie.

Extrapolando, podemos assumir que a consciência é uma capacidade cerebral e, como tal, é inerente a todos os seres vivos que a possuam. Esta assumpção é perigosa (como todas). Por exemplo, a definição de consciência aceite em todos os meios é a de uma mente humana capaz de se perceber como o “eu” e de perceber o que rodeia o “eu”. Isto anula prontamente a primeira premissa descrita neste parágrafo e, assim sendo, apenas o ser humano é consciente. Poderíamos ainda argumentar que outros seres vivos podem ter consciência sub-desenvolvida, tornando tudo uma questão de escalas, ou então argumentar que nem todos os humanos têm de facto capacidade cognitiva suficiente para ser conscientes. Tudo meras suposições e conjecturas de séculos de conhecimento empacotado com uma pitada (grande) de senso comum.

Cogito ergo sum, podemos começar por aqui. Como ser pensante que sou, humano ou não, tenho uma consciência. Ponto. Então, como vamos definir o pensamento? Instintos são pensamento? E como podemos definir instintos? Apenas são instintos aqueles que advêm do cérebro, ou impulsos eléctricos que potenciam a locomoção de um invertebrado acéfalo também o são?

Calma... tantas perguntas... vamos estabelecer o nosso ponto zero. Cogito ergo sum. A Consciência pode ser definida como o acto de pensar de forma válida e activa com recurso a um cérebro orgânico vivo. Desta forma podemos estruturar as nossas ideias nesta direcção, fugindo a outras dissertações (não vamos falar de inconsciência nem de consciência artificial).

O ponto zero – o Instinto. Este instinto refere-se ao dos seres pensantes capazes de ser conscientes. Não constitui por si só uma fonte de consciência mas é a faísca para todos os níveis mais avançados. A evolução da consciência estratifica-se em camadas, onde cada camada adquirida sobrepõe-se de forma cumulativa e cooperativa às anteriores. Com o Instinto, o Indivíduo usa as capacidades intrínsecas à sua condição para adquirir e garantir algumas das suas necessidades básicas, tais como comida, refúgio ou parceiros sexuais. Não possui qualquer tipo de entendimento do mundo que o rodeia, pelo que não se trata de o aceitar como ele é – limita-se a assegurar as suas necessidades básicas a qualquer custo. Trata-se de um estado de consciência associado à percepção. O Instinto é o mais básico dos estados de consciência e estará sempre presente e activo por mais níveis que subamos na escala. Este é um estado que julgamos latente mas que se espelha em todas as acções que fazemos. De facto, é muito comum ouvirmos falar na suposta importância de reprimirmos os nossos instintos, esta é a ideia incutida pela nossa sociedade. Pensar que podemos asfixiar o Instinto, no nosso actual estado evolutivo, é uma burrice e uma insensatez – o Instinto é o que nos mantém vivos.

O Instinto potencia o segundo nível de consciência – a Sobrevivência. Enquanto o Instinto é inato, a consciência de sobrevivência não o é. Ambos são facilmente confundidos, mas na verdade a sobrevivência diz respeito ao facto de o Indivíduo procurar assegurar, dentro do seu meio, o máximo de recursos para prolongar e facilitar a sua vida. Procura ter um entendimento racional daquilo que o rodeia, mas com o objectivo de assegurar prosperidade própria e para os seus descendentes. Trata-se de um nível de transição entre o instinto puro e a procura de níveis superiores de maturidade da consciência. A generalidade dos académicos não dissocia estes dois níveis, ou no limite referem-se a eles como complementares. Eu defendo que a consciência de Sobrevivência é a parte não-inata do Instinto. Este é o último nível alcançável para seres isolados e sem qualquer contacto com outros da mesma espécie (ou espécies mais evoluídas). Trata-se de um estado de consciência de relacionamento para com a percepção.

A Aceitação é o terceiro nível. O Indivíduo, após ver a sua sobrevivência assegurada, tem a necessidade de se sentir aceite e respeitado, quando vive em sociedade. Entende as condicionantes do meio em que se insere e sabe que parte da sobrevivência é assegurada através do respeito que o resto da comunidade nutre por ele. É um nível de atitude em relação ao relacionamento. Este nível de consciência só é alcançável quando os dois anteriores estão firmemente cimentados e é o primeiro dos níveis de consciência social.

O quarto nível e último da Imaturidade da Consciência é a Realização ou Prazer. Uma vez aceite pelos seus pares, o Indivíduo procura agora a aceitação do ego. Conhece as regras da sociedade e aceita-as de forma inquestionável, mas ao ter os níveis anteriores assegurados começa a perceber que existe uma meta por atingir e uma busca a ser feita – a busca da felicidade – que pode ser interpretada como uma crescente busca de bem-estar e realização pessoal. É um nível de obtenção ou realização face à atitude.

A Humanidade, de uma forma geral, tem estes quatro níveis de consciência bem desenvolvidos. Mas apenas uma franja muito ténue começa a amadurecer para o próximo nível.

15 June 2010

O NOSSO OLHO

Onde estás Neo?
Onde estás Jiddu?
Onde estás Lennon?

Procuro-vos com o meu Olho, mas não os encontro. Sei que estão aí, mas não os vejo. Mas sinto-os, é tudo o que sei e preciso saber. Poderei criticar aqueles que acreditam mesmo sem ver, apenas sentindo?

O meu Olho apontou demasiado tempo para fora. Como posso esperar encontrar o que procuro, sem nem dentro de mim quero procurar?

Um dia saí à rua e vi um velho no chão. Pedia uma esmola. Estava roto e com um ar triste e cansado. Na mão, tinha um copo de plástico vazio onde bebera um café que conseguiu cravar. Balbuciava uma língua estranha, mas pude perceber que tinha fome. No canto do seu olho, vi um brilho estranho e profundo que me fez viajar. Viajei. Viajei bastante até perder a noção do tempo. Viajei anos, viajei eras. Vi alegria e tristeza, vi morte e nascimento, vi rios e areia, vi pássaros a cantar e estrelas distantes. Vi a minha vida de criança quando brincava nas férias de Verão, vi a minha primeira queda de bicicleta, vi o meu primeiro beijo. Vi-me num alpendre já velhinho a contemplar feliz os meus netos a brincar, emoldurados pelo pôr-do-sol e por um velho castanheiro. Nesse dia estava cansado, tinha dormido mal. Para além disso andava aborrecido, meio adoentado. Lembro-me perfeitamente, era Janeiro - era um dia ameno no meio dum Inverno frio e seco, como um oásis no meio do deserto. Aquele brilho no olho do homem durou um segundo, mas lembro-me bem que aquele segundo durou toda uma vida. E depois bateu-me como um comboio – eu todos os dias passava ali, todos os dias eu via aquele velho. Todos os dias me pediu dinheiro para comer e nunca lhe tinha sequer olhado no olho. Nunca tinha visto aquele brilho mas tenho a certeza absoluta que sempre lá esteve. Odiei-me por isso.

Sei que não foi apenas esta a minha faísca. Já há muito que sentia o Estímulo a fermentar dentro de mim e sentia o ódio a corroer-me o corpo num doce compasso. Mas desde aquela altura da minha vida que comecei a mudar. Comecei aos poucos a perder o ódio e comecei a tolerar, comecei a escutar e a prestar atenção aos pormenores. Mudei de opinião acerca de tanta coisa, comecei a dar valor a coisas completamente diferentes. Porquê assim tão subitamente? Sinto-me tão melhor, já começo a conseguir compreender as coisas. Já alguma vez tiveram vontade de chorar de felicidade? Estou tão feliz que decidi começar a partilhar a minha experiência nestes quarenta e dois degraus – sei que eles me vão levar lá acima.

Tenho estudado mil e um assuntos, agora que sei o que procuro. Já não estou intoxicado com a sopa que me dão e já consigo opinar livremente. É tão engraçado quando percebemos que dantes pensávamos que éramos livres e felizes mas estávamos completamente fechados num casulo... agora consigo olhar para baixo e compreender que sou livre. Sou mais inteligente e perspicaz, mas não me julgo melhor. Compreendo aos poucos tudo o que me rodeia – sei agora o que Neo sentiu na sua descoberta.

O meu Olho já consegue olhar para dentro aos poucos. Consigo ver coisas brilhantes e quero partilhá-las convosco. É por isso que estou aqui. Lembram-se do que já percorreram? Consegui abrir-vos as mentes? Leram até aqui?? Bravo!

Ora, o que vos posso relembrar para que me possam acompanhar confortavelmente durante os próximos degraus? Bom, posso recordar-vos que certamente já terão visto o tal brilho nos olhos de alguém, a metáfora da faísca, o estímulo. Sim, já devem ter tido vontade de gritar e fugir, ou não teriam lido até aqui. Posso-vos também recordar que não sabemos nada, somos demasiado pequenos para saber seja o que for. Posso-vos lembrar que todas as assumpções que possam ter feito durante toda a vossa vida estão erradas, mais não seja por não terem qualquer tipo de confirmação – os vossos olhos não conseguem ver. Esqueçam o que sabem – tanto quanto vos posso dizer é que nem podem ter a certeza que realmente existem, ou que o mundo existe, ou que o vosso deus existe. Posso-vos recordar que não sou um pastor nem tento espalhar religiões. Não quero o vosso dinheiro nem planeio criar um culto. Estou a partilhar um ponto de vista e podem fechar o livro assim que bem entenderem. Podem-se recordar também que, partindo do pressuposto que pelo menos existimos neste planeta e somos seres vivos de base orgânica de carbono e água (e, claro, energia... mas nada esotérico, estou a falar de Físico-Química, átomos e moléculas, iões e protões e electrões... muitos electrões...), partindo deste minúsculo pressuposto, somos uma espécie jovem e burra, como qualquer adolescente que goza com os mais velhos e se julga o maior só porque já tem pêlos púbicos e até houve uma vez que fumou um cigarro às escondidas com o amigo, atrás da escola. Finalmente, podem relembrar e absorver bem fundo esta dica: só há duas coisas que realmente importa reter na cabeça durante a caminhada – devir – nada é o que foi e nada será o que é, tudo é uma constante mudança, tudo é um rio que corre para o mar. Estamos em constante evolução e mesmo quando deixarmos de existir, tudo o resto irá continuar a mudar – e gnosis – tudo é Conhecimento, a chave para a nossa evolução enquanto ser vivo individual e enquanto espécie é o Conhecimento. Devemos procurar a Salvação pelo Conhecimento, uma salvação de nós próprios. Não tem nada a ver com religião e divindades. As noções de gnosticismo não podem ser levadas à letra aqui. Somos seres vivos dotados de um espírito, o espírito humano, vivo e vibrante, sempre em mudança. Não há deuses nem profetas, há apenas uma busca pelo Conhecimento supremo, que nos trará todas as respostas e nos fará sentir completos e excelentes.

Os próximos degraus irão condensar toda esta linha de pensamento.